quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Cerâmica e nova criação. Um olhar inteligente e terno sobre a "loiça de vermelho".

Francisca Maria Branco Venâncio defendeu o seu relatório de Projecto Final de Mestrado em Design de Produto em 14 de Dezembro. Trata-se de uma revisitação à gastronomia e à olaria utilitária portuguesa.

O discurso foi construído em função de três propostas: uma assadeira, uma talha e uma cuscuzeira. Cada uma das peças decorre de opções técnicas e histórico-culturais. A assadeira tem uma presença disseminada Noroeste, a talha vinícola está associada sobretudo ao Alentejo e a cuscuzeira ao Nordeste.

Francisca pediu ajuda à antropologia e à gastronomia para justificar a adequação das suas escolhas. E percorreu alguns dos principais centros oleiros – Bisalhães, Nisa, Redondo, São Pedro do Corval, Beringel, Vila de Frades – onde colheu amostras e práticas que reutilizou nas suas propostas.
A tese intitula-se poeticamente Barro: Um Pedaço de Tempo na Alimentação.
O fio do texto é pautado pela experiência pessoal da sua autora, originária de uma família onde se cruzam raízes minhotas e transmontanas e lhe transmitiu a memória da preparação de alimentos, do tempo da mesa partilhado, da elaboração culinária em utensílios de mesa e fogo em barro vermelho.

Trabalho realizado com eficácia e elegância, assente em boa informação - bibliográfica e de recolha directa – soluções técnicas e formais muito perspicazes, um regresso carinhoso e inteligente ao tempo do barro vermelho.


Um regresso onde a nostalgia é temperada pela urgência em retomar a centralidade da cerâmica na vida quotidiana. Francisca não se deixou seduzir pelo artesanato urbano, pela via decorativa da recuperação da olaria. As suas propostas são inovadoras precisamente porque repõem a olaria na cultura de que fazem parte.
Juri: Luis Miguel Pessanha, Renato Bispo,
João Serra, Albio Nascimento

Cidade cerâmica e nova criação. Uma base de dados oportuna

Realizaram-se no passado dia 12 de Dezembro as provas de mestrado de Luís Manuel Lourenço da Silva Ascenso. O novo mestre em gestão cultural trabalhou sobre a hipótese de uma candidatura a apresentar em 2020 pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha ao título de Cidade Criativa da Unesco.
A evidência sobre a antiguidade do centro cerâmico caldense está no essencial recolhida. Desde a fundação moderna da cidade, que os responsáveis pelo novo concelho providenciaram a presença de oficinas de oleiros. A historiografia regista a evolução do centro com produtos “em vermelho”, em “vidrado” e de faiança. No século XIX, surgiu uma linha de produção de “faiança de fantasia”, acompanhando, nalguns casos antecipando até, a louça de inspiração “palissy” reinventada em Tours e Paris.
Luís Ascenso quis dar nota da situação actual, registando as unidades fabris em laboração, a tipologia de produtos e os mercados a que se dirigem. Finalmente, tema fundamental da sua investigação, organizou uma base de dados sobre a produção cerâmica de autor directamente relacionada com o meio cerâmico caldense.

O mérito principal desse trabalho paciente de recolha de informação, junto de cada um dos autores, com visita pessoal a cada um dos ateliês/oficinas, foi ter começado esse inventário que, não sendo completo, abrange uma parte significativa do universo de criadores estabelecidos.
O trabalho de Luís Ascenso permite já concluir, quando a esse universo, que ele é na sua quase totalidade constituído por autores que obtiveram formação cerâmica no Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica das Caldas da Rainha e na Escola de Artes e Design das Caldas da Rainha, o primeiro surgido em princípios da década de 80 e a segunda uma década mais tarde.

Em segundo lugar, o inquérito põe em evidencia que estes autores abordam a cerâmica enquanto prática artística ou do design, o que se reflecte tanto no enquadramento disciplinar da sua actividade criativa como nos circuitos de comunicação e mercado em que se procuram inserir.
O estudo de Luís Ascenso ajuda a validar não apenas a candidatura anunciada pela Câmara Municipal, que em breve será objecto de apresentação prévia à Comissão Nacional da Unesco, como os objectivos e metodologias do festival MOLDA, que em 2018 terá a sua segunda edição.


Juri: José Luis de Almeida e Silva, Luisa Arroz Albuquerque,
João Serra, Carla Cardoso

Praça da Loiça. O mercado de cerâmica em bilhete postal ilustrado











Praça da loiça. Caldas da Rainha, décadas de 50/60

Fotografia de Amadeu Ferrari. Anos 60
Arquivo Histórico Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa
Fotografia de Jose Neto Pereira, anos 50
Colecção Património Histórico-Grupo de Estudos

Fotografia de Helena Corrêa de Barros, 1961
Arquivo Histórico Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa




segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Louça na feira das Caldas: 15 de Agosto de 1909

A Ilustração Portuguesa enviou o seu fotógrafo Joshua Benoliei às Caldas, para fazer uma reportagem da feira do 15 de Agosto de 1909. O resultado da visita foi publicado na edição daquela revista de 30 de Agosto do mesmo ano.
A reportagem ocupa três paginas, com 15 fotografias e um curto texto que a seguir se transcreve:

"A feira das Caldas
A feira das Caldas é uma das mais interessantes do país, pelo grande número de pessoas que ali concorrem idas de Lisboa e de outros pontos próximos, principalmente porque ela se faz a 15 e 16 de Agosto, e sendo o primeiro destes dias de festa tradicional, muita gente se dirige à feira da localidade.
A fisionomia dessa feira é curiosa. Grande número de excursionistas pelos arruados, onde as vendedeiras apresentam os seus tabuleiros de bolos e das saborosas cavacas, que são os produtos da vila; há também lugares de louças e de bugigangas do tipo antigo que tornaram célebre a povoação onde Rafael Bordalo devia realizar uma renovação artística; montões de frutas expõem-se naquele tumultuar do mercado no qual fotógrafos ambulantes, pelotiqueiros e vendedores dos mais extravagantes objectos fazem o seu negócio. Nota dominante da feira são os varapaus ferrados, os marmeleiros nodosos e fortes que têm grande venda como as cestas e outros produtos dos arrabaldes que toda a gente quer trazer como recordação  desse passeio a uma das mais pitorescas localidades do país, próximo de Lisboa, famosa pelas suas águas medicinais."



Cinco dos negativos desta incursão caldense de Joshua Benoliel integram hoje o acervo do Arquivo Histórico Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, onde podem ser consultados. Dois  deles foram editados na Ilustração, os restantes permaneceram inéditos.

Publicamos agora três dessas imagens onde se podem ver, em venda e utilização, louça de barro vermelho da região.




domingo, 10 de dezembro de 2017

Uma tela de Columbano no tecto do Pavilhão de Vendas da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha

Devo a Margarida Araújo a descoberta e investigação da relação entre a obra de Columbano – Alegoria à Cerâmica – e a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha fundada em 1884.
Tudo começou com uma fotografia de Francesco Rocchini que faz hoje parte do acervo do Arquivo Histórico Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, e que a seguir se reproduz.
Pavilhão de Vendas da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
[Arquivo Histórico Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa]
Trata-se de um negativo em gelatina e prata de vidro, com as dimensões de 24x30 cm. De acordo com a nota biográfica publicada no site do Arquivo Português de Fotografia, “Francesco Rocchini nasceu em Monte Leone, Itália, por volta do ano de 1820. Veio para Portugal na década de 40 do século XIX (1844 ou 1847) e era marceneiro de profissão. Provavelmente aprendeu o processo do daguerreótipo com K. P. Corentin que em 1851 ensina-lhe a técnica em Lisboa. Fotografou pelo país inteiro, aliando as actividades de marceneiro, fotógrafo, fabricante de máquinas, de acessórios para fotografia e de pequenos laboratórios para trabalhar ao ar livre. Inicialmente localizado na Travessa de Santa Gertrudes, à Estrela, estabeleceu-se depois com um estúdio de fotografia na Travessa da Água Flor, n.º 21, 2º a São Pedro de Alcântara, no decurso do ano de 1865. Foi fornecedor de imagens para revistas nacionais e estrangeiras, nomeadamente a Ilustração Portuguesa, o Panorama Photographico e O Ocidente, e para as Academias de Belas Artes. Foi também fotógrafo da Casa Real portuguesa. Publicou parte dos seus trabalhos em álbuns com albuminas de vistas e monumentos. Rocchini morreu em 1895 continuando o seu estúdio em funcionamento, o seu novo proprietário, J. Nunes Ribeiro, alterou o nome comercial da casa para Fotografia Beleza”.
A imagem regista o interior do Pavilhão de Vendas da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, estabelecida em 1884 nesta vila, cujo director artístico era Rafael Bordalo Pinheiro. Esse pavilhão esteve na mira de diversos fotógrafos, tendo alguns dos clichés sido editados em bilhete postal ilustrado nos finais do século XIX e primeiros anos do século XX.
Mostram-se, em seguida, algumas dessas fotografias da época, quer do interior quer do exterior do Pavilhão.




O que intrigou a dr.ª Margarida Araújo foi a pintura que se pode observar no tecto do Pavilhão de Vendas. Não se encontrou, até agora, em nenhuma outra das imagens conhecidas daquelas instalações.
Ampliando a reprodução fotográfica, foi possível identificar a pintura. Trata-se de uma das alegorias pintadas por Columbano (aliás Columbano Bordalo Pinheiro, irmão de Rafael), esta dedicada à cerâmica.
A obra, que a seguir pode ser observada, faz hoje parte do acervo do Museu de Arte de S. Paulo, onde foi incorporada, por doação, em 1972 (cf. https://www.masp.org.br/acervo/obra/alegoria-da-pintura-sobre-ceramica).

A análise dos elementos que compõem a tela não deixa dúvidas. No lado esquerdo, da pintura podemos ver um forno, da tipologia “Minton” da Fábrica de Faianças (abaixo, insere-se uma fotografia da antiga Fábrica com esses fornos característicos), e, no lado direito, os volumes arquitectónicos do próprio Pavilhão de Vendas. Em baixo à direita, uma talha de grandes proporções ostenta os elementos decorativos comuns à louça naturalista caldense da segunda metade do século XIX.
Fotografia das antigas instalações industriais da
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
A pintura está datada de 1885, ou seja do próprio ano em que as instalações industriais da Fábrica foram inauguradas, com os aludidos fornos de refractário para cozedura de faiança utilitária de mesa. Tem as dimensões de 500x300 cm, certamente adequadas ao espaço a que se destinava.
Por motivos que desconheço, mas a que poderá não ser estranha a crise financeira que atingiu irreversivelmente a empresa em 1890, a tela foi retirada do Pavilhão de Vendas, sendo substituída por outra decoração, mais convencional. Deve ter estado exposta nas Caldas provavelmente apenas na segunda metade da década de 1880, quando foi fotografada por Rocchini.



terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Jorge de Almeida Monteiro e a Cerâmica Bombarralense

A história da cerâmica tem no Bombaral duas páginas importantes: a Cerâmica Bombarralense (1944-1954) e a Ceramarte (1969-1991). À primeira está ligado o nome de Jorge de Almeida Monteiro, ao segundo o de Virgílio Correia e sua mulher, Maria da Natividade Mendes (Natas).
Jorge de Almeida Monteiro nasceu no Bombarral em 1908 numa família ligada ao pequeno comércio. Seu pai, Custódio de Almeida Monteiro, tinha uma loja de vidros e louças.
Frequentou nas Caldas da Rainha a Escola Primária Superior e a Escola Industrial e Comercial. Aqui começou pelo curso comercial, que não concluiu, para mais tarde se matricular no de cerâmica.
Casou, em 1938, com Atalanta, filha de Evaristo Judicibus, proprietário de uma tipografia. Almeida Monteiro divide o tempo entre a loja do pai e a gráfica do sogro. Faz trabalhos de reparação de mobiliário, utilizando o cobre e a madeira, aventurando-se por vezes na criação de peças em cobre martelado.
O contacto com Alberto Morais do Vale, em 1940/41, renovou em Jorge Almeida Monteiro o interesse pela cerâmica. Morais do Vale, escultor e ceramista, era professor e director da Escola Técnica das Caldas da Rainha e director artístico de uma oficina de cerâmica nesta cidade - Cerâmica Moderna. Naquela data, organizou no Bombarral um curso de artes plásticas no qual Almeida Monteiro se inscreveu. A frequência do curso estimulou-o a projectar a fundação de uma fábrica de cerâmica.
A Cerâmica Bombarralense L.da surgiria em 1944. Dedicava-se à faiança, produzindo louça decorativa e azulejo. Obteve alvará para produzir porcelana, secção que não chegou a instalar.
Anúncio da constituição da Cerâmica Bombarralense.
Gazeta das Caldas, 1944. [Cortesia de Dóris Santos]
A fábrica tornou-se também local de encontro artístico e político. Júlio Pomar e Alice Jorge, Vasco Pereira da Conceição e Maria Barreira, David de Sousa, Stella de Brito e Hernâni Lopes foram alguns dos artistas que o frequentaram. O ambiente cultural e estético era marcado pelo neo-realismo. Na década de 50, José Dias Coelho fez igualmente experiências de cerâmica na Bombarralense.
Carta de Julio Pomar para Jorge de Almeida Monteiro.
[Cortesia de Dóris Santos]
Foi nela também que, em 1944, o jovem pintor de cerâmica Ferreira da Silva, vindo de Coimbra aos 16 anos, principiou a sua carreira. Em painéis datados de 1954, a assinatura deste artista é acompanhada da menção "Estúdio Jorge Almeida Monteiro", designação provavelmente inspirado no Estúdio que Hansi Staël abrira pela mesma altura na SECLA, nas Caldas da Rainha.
No princípio da década de 1950, o escritor João Fragoso veio à Cerâmica Bombarralense testar e produzir azulejos de uma encomenda para as novas instalações do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, inauguradas em meados de 1953.
Exemplar de A Nossa Terra, 1950
[Cortesia de Dóris Santos]

Em 1954, a Cerâmica Bombarralense fechou, na sequência de um incêndio que a apanhou descapitalizada. A respectivo alvará, na parte que autorizava a produção de porcelana, foi adquirido por elementos da família alcobacense Da Bernarda, com o qual viria a montar a unidade fabril SPAL.
Almeida Monteiro fundou a seguir uma oficina para os seus trabalhos de cerâmica, gravura e cobre martelado, a qual funcionaria até 1974. Recebeu encomendas de painéis decorativos para diversas empresas.
Paralelamente desenvolveu o interesse pela arqueologia, assinando diversos trabalhos com especialistas nacionais, como Octávio da Veiga Ferreira e Fernando de Almeida. Na Nazaré, localidade à qual a sua actividade se alargou, colaborou com Eduino Borges Garcia e apoiou a criação do Museu Etnográfico e Arqueológico Joaquim Manso.
Esteve presente nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes, entre 1949 e 1954, e, na década de 60, em diversas exposições colectivas em galerias de Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Angra do Heroísmo, Funchal, com escultura em metal e com gravura. Também participou na Exposição de Gravadores Portugueses de 1955 e integrou o catálogo da Gravura, Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, de 1959. Trabalhos seus estiveram expostos em Gotemburg (Suécia), Madrid e Roma.
Faleceu em 1983.

Bibliografia
Humberto Sousinha Macatrão, "Jorge de Almeida Monteiro". Jorge de Almeida Monteiro, 1908-1983. Museu Municipal do Bombarral, 1997
Isabel Xavier (coord.), Ferreira da Silva: Obra em Espaço Publico. Caldas da Rainha, 2017.

João B. Serra