Ferreira
da Silva é um dos nomes maiores das
artes plásticas do Portugal contemporâneo, com uma obra que abarca o desenho e
pintura, a gravura e a escultura, o vitral, a azulejaria e a cerâmica. A sua vastíssima obra cerâmica (faiança, grés,
porcelana), que se distribui por todo o país e abarca diversas modalidades de
trabalho – desde a pintura ao design, desde a modelação de peças artísticas à produção de cerâmica utilitária – tem uma
particular concentração nas Caldas da Rainha e região envolvente, onde começou
a trabalhar aos 16 anos. Nasceu no Porto em 1928 e fez estudos de desenho e
pintura em Coimbra, antes de iniciar um percurso profissional na indústria cerâmica que passou pelo Bombarral,
Alcobaça, Viana do Castelo, Ermesinde, Benedita, Caldas da Rainha, Porto, com
regresso às Caldas da Rainha na
década de 1980.
Na
cidade das Caldas da Rainha, a sua obra cerâmica pode ser vista no Museu da
Cerâmica, na colecção Municipal Ferreira da Silva,
no Cencal (Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica), em
diversas colecções particulares e sobretudo em vários edifícios e locais de
acesso público. Um Centro de Documentação Ferreira da Silva foi constituído
recentemente entre a Câmara Municipal e a Associação Património Histórico.
Em resultado dos trabalhos deste Centro, organizou-se um inventário da obra em
espaço público de Ferreira da Silva, de que o presente catálogo é tributário.
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Ferreira da Silva em obra. Obelisco "Leonor" Fotografia de João B. Serra, 2001 |
A
estrita e directa articulação entre intervenção artística em espaço urbano
e encomenda orientada para o espaço público explica que a parte mais
significativa deste tipo de trabalhos se centre nos últimos trinta anos da vida
de Ferreira da Silva. É sobretudo após a sua segunda fixação nas Caldas
que se reúnem as condições de produção
e de procura que viabilizam um crescente volume de obra pública deste autor. As
condições de produção encontrou-as
no Cencal (criado formalmente em 1981, dotado de instalações próprias em 1985)
e na Molde, uma empresa de louça e azulejo fundada em 1988.
A procura veio inicialmente de um ou outro serviço do Estado ou empresa pública
(o Palácio da Ajuda, o Instituto de Oncologia de Coimbra, a Brisa). O próprio
Cencal,
o Centro Hospitalar das Caldas da Rainha
e a Câmara Municipal das Caldas da Rainha
foram as entidades que mais e mais volumosas intervenções suscitaram a Ferreira
da Silva. A par delas, pode ser colocada a empreitada decorativa que lhe foi
atribuída pela administração da Quinta do Pinheiro, Hotel Rural, em Valado de
Frades (da empresa A. Varela & Filhas - Agricultura e Turismo
Lda.), no final da década de
1990, a qual se prolongou até 2007. Haverá ainda que referir a instalação efémera que realizou a convite do comissário
da edição de 2002 do festival “Monsaraz Museu Aberto”, iniciativa da Câmara
Municipal de Reguengos de Monsaraz.
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Ferreira da Silva em obra. Obelisco "Leonor". Fotografia de Margarida Araújo. 2002 |
A
obra pública cerâmica caldense de Ferreira da Silva é constituída por painéis
azulejares, por instalações
compósitas onde a cerâmica se cruza com materiais não cerâmicos, como o ferro,
o vidro e a pedra. Combina fragmentos cerâmicos resultantes da actividade de
produção fabril, cerâmica azulejar de forte coloração e frequente alusão a temas da
mitologia clássica, da poesia e da história da ciência. O feminino é presença frequente, sendo especialmente
assinalada a figura da rainha Leonor, fundadora das Caldas moderna. Algumas
instalações são de escala considerável e foram realizadas por diferentes fases,
implicando deslocações ou sobreposições de perspectiva criativa.
A
obra de Ferreira da Silva introduziu alterações substantivas na cerâmica
portuguesa. É uma obra de alta exigência técnica, com a qual pôde afrontar a escala própria das intervenções em espaço público.
É uma obra que, sem negar os nexos com a indústria, remete para uma
criatividade exuberante, de efeito surpreendente na sua aspiração escultórica,
arquitectónica e urbana.
Poucas
serão as cidades no mundo, da dimensão das Caldas da Rainha, que ostentam uma
tão profusa obra plástica em espaço de acesso público. A marca que ela produz
na imagem e na identidade caldense é profunda. Caldas não seria a mesma cidade,
sem essa presença forte e desafiadora de Ferreira da Silva.
Os
trabalhos de Ferreira da Silva operaram uma mudança na forma de fazer intervir
a arte em espaço público. Foi com ele que a arte contemporânea invadiu em
permanência o espaço de acesso público das Caldas da Rainha.
A
presença da arte contemporânea é distinta da de anteriores manifestações
artísticas no espaço público. Enquanto estas cultivavam a distância, do alto do
pedestal, aquela arrisca a proximidade aos cidadãos. Estas eram consagratórias,
e aquela é interpelante. Estas
presidiam, imponentes, aos lugares, aquela como que agita, desarruma os
lugares. Estas eram legitimadoras, aquela quer surpreender, por vezes
questionar, ou mesmo inquietar.
A
arte contemporânea entrou na cidade das Caldas pela mão dos escultores reunidos
nos Simpósios de Pedra, cuja primeira edição ocorreu em 1986. Do lote
extraordinário de peças saídas do primeiro Simppetra fazem parte obras de José
Aurélio, Zulmiro de Carvalho, Carlos Barreira, Carlos Marques, João Honório,
Silvi Davenport e Thom Janusz.
Apesar
de concebidas para integração no espaço público, não foram realizadas para um
local determinado. De certo modo eram obras museológicas, ainda que porventura
destinadas a um virtual museu de ar livre. Tinham o estatuto de obras nómadas.
No
roteiro de obra em espaço público caldense de Ferreira da Silva, apenas uma das
peças pode inserir-se no mesmo quadro de obras migrantes. É o caso do monobloco
de homenagem ao Rei D. Luís, executada por ocasião do centenário do seu
falecimento, em 1989. Exactamente a primeira em termos cronológicos, desta
segunda fase de presença do artista na cidade. Mas convirá recordar que a obra
se destinava ao Palácio da Ajuda, e a sua integração no acervo do Cencal se
deverá a equívocos do caderno de encargos. Todas as restantes foram projectadas
para um local, implantadas num local, estruturadas e parcialmente realizadas
num local. São verdadeiramente obras “site specific”.
E se
algumas se conformaram com as condições impostas pelo local, sobretudo quando
de trata de peças parietais, outras assumem uma vocação “invasora” do local,
alterando a sua natureza prévia,
como acontece com o revestimento do viaduto da Rua Prof. Manuel José António, dotando-o de nova significação, com o
obelisco Leonor, frente à Expoeste,
ou com a instalação compósita Jardins da Água, uma reinterpretação da Ode
Marítima de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, nas traseiras do Chafariz das 5
Bicas. Podemos dizer que nestes três casos, estamos perante realizações
artísticas fundadoras do próprio local, “site specific foundation”, se assim as podemos designar.
A
derradeira obra de Ferreira da Silva, a que mais tempo lhe exigiu, inventou-a e
reinventou-a sucessivamente ao longo de mais de uma década. De entre as várias
citações emblemáticas da Ode Marítima que dela constam, há talvez uma que posso destacar:
Chamam
por mim as águas,
Chamam
por mim os mares,
Chamam
por mim, levantando uma voz corpórea, os longes,
As
épocas marítimas
todas sentidas no passado, a chamar.
Poeta
da inquietude, das vozes que vindas de longe ecoam em nós, poderíamos assim
identificar Ferreira da Silva. Trazer essa inquietude para o meio de nós, para
os locais onde nos cruzamos, onde protestamos ou aplaudimos, onde choramos ou
rimos, onde exprimimos indignação, mas também onde nos abraçamos – o espaço
público –constituiu um dos mais extraordinários projectos de intervenção urbana
do nosso tempo. O espaço público é por definição o elo estruturador da cidade,
o ponto de encontro transversal às gerações, aos estratos sócio-económicos e às
proveniências culturais. Não deixará de ser uma das pedras mais sólidas da
identidade das Caldas da Rainha, na transição do século XX para o século XXI.
João B. Serra
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Ferreira da Silva em obra. "Jardins de Água".
Fotografia de Valter Vinagre, 1994. |